Economista francês prevê transformação do sistema monetário global e questiona futuro do dólar

 


Economista francês defende uma nova arquitetura financeira internacional, com maior participação de países emergentes, tributação das grandes fortunas e mudanças nas instituições multilaterais

O economista francês Thomas Piketty voltou a defender uma profunda transformação na organização econômica internacional. Em entrevista à BBC News Brasil publicada em 29 de setembro de 2026, ele afirmou que o atual sistema monetário mundial tende a sofrer mudanças importantes e considerou que o papel dominante do dólar poderá ser reduzido diante da transformação da economia global.

A avaliação está relacionada às propostas reunidas no Global Justice Report, elaborado pelo World Inequality Lab, ligado à Paris School of Economics. O projeto apresenta uma série de propostas para combinar redução das desigualdades, desenvolvimento econômico e enfrentamento das mudanças climáticas.

O relatório foi lançado em junho de 2026 e apresenta cenários para o período entre 2026 e 2100. Entre suas propostas estão mudanças na governança econômica internacional, maior tributação da riqueza e uma reorganização do sistema financeiro mundial. (WID - World Inequality Database)

O futuro do dólar em debate

Piketty argumenta que a posição internacional dos Estados Unidos mudou em relação ao período posterior à Segunda Guerra Mundial. Na sua avaliação, o peso relativo da economia americana diminuiu diante do crescimento de outras regiões do planeta.

A partir dessa constatação, o economista questiona a permanência de um sistema monetário internacional excessivamente dependente de uma única moeda.

Sua proposta é caminhar para uma estrutura mais multipolar, na qual diferentes moedas tenham participação na composição de uma eventual moeda ou mecanismo internacional de referência.

Essa ideia não significa que o dólar deixaria imediatamente de existir ou que outra moeda já esteja pronta para substituí-lo. Trata-se, na visão apresentada por Piketty, de uma transformação gradual da arquitetura monetária internacional.

O próprio World Inequality Report 2026 aponta que o dólar continua sendo a principal moeda utilizada em reservas internacionais, denominação de ativos financeiros e faturamento comercial. Ao mesmo tempo, o relatório discute as vantagens financeiras associadas ao papel das moedas de reserva. (World Inequality Report 2026)

Uma possível moeda internacional

Entre as propostas discutidas pelo grupo de pesquisadores está uma maior democratização das instituições financeiras internacionais e a criação de mecanismos monetários capazes de representar melhor uma economia mundial multipolar.

Piketty defende que uma eventual estrutura internacional deveria levar em consideração diferentes países e regiões, incluindo grandes economias emergentes.

A ideia se relaciona também aos Direitos Especiais de Saque (SDRs) do Fundo Monetário Internacional. Esses instrumentos já existem e funcionam como um ativo de reserva internacional, embora não constituam uma moeda mundial no sentido tradicional.

O debate sobre os SDRs é citado pelo economista como um possível ponto de partida para uma transformação mais ampla do sistema monetário.

A desigualdade está no centro da proposta

A discussão sobre moedas, porém, é apenas uma parte de um projeto maior.

O Global Justice Report procura estabelecer uma trajetória de desenvolvimento capaz de elevar os padrões de vida em diferentes regiões sem ultrapassar limites ambientais considerados críticos.

O relatório apresenta um cenário de convergência econômica global e trabalha com a possibilidade de alcançar uma renda média de € 5 mil por mês por adulto, em valores de referência utilizados pelo estudo, até 2100, dentro de um cenário de restrições ambientais. (WID - World Inequality Database)

Para alcançar esse objetivo, os pesquisadores discutem mudanças profundas nos padrões de produção e consumo, redução das desigualdades e expansão de investimentos em educação, saúde e infraestrutura.

Tributação dos super-ricos

Outro ponto recorrente nas propostas de Piketty é a criação de mecanismos internacionais para aumentar a tributação das grandes fortunas.

O tema ganhou espaço nas discussões internacionais nos últimos anos, especialmente no G20 e em iniciativas relacionadas à Organização das Nações Unidas.

O World Inequality Report 2026 também dedica um capítulo à tributação global de multimilionários e argumenta que sistemas tributários progressivos podem contribuir para financiar serviços públicos e reduzir desigualdades. (World Inequality Report 2026)

A proposta enfrenta, entretanto, obstáculos políticos importantes, porque exigiria algum grau de coordenação entre países com interesses econômicos distintos.

O papel do Brasil

Na entrevista concedida à BBC, Piketty atribuiu ao Brasil uma posição relevante nesse debate internacional.

O país participou nos últimos anos das discussões sobre tributação internacional e desigualdade econômica, inclusive durante a presidência brasileira do G20 em 2024.

Para o economista, países emergentes podem desempenhar um papel importante na construção de novas regras para o sistema financeiro internacional.

A discussão não se limita ao Brasil. Índia, África do Sul, Indonésia e outras economias emergentes também aparecem nesse debate sobre a representação dos países em instituições multilaterais.

O sistema financeiro internacional sob questionamento

O diagnóstico apresentado pelo World Inequality Lab é que a atual arquitetura financeira internacional produz vantagens significativas para os países que emitem moedas de reserva.

Segundo o relatório, economias desenvolvidas conseguem obter financiamento em condições mais favoráveis e, simultaneamente, investir internacionalmente em ativos de maior rendimento. O estudo classifica esse mecanismo como uma forma de vantagem estrutural do sistema financeiro internacional. (World Inequality Report 2026)

Essa interpretação está no centro da proposta de reformulação das instituições internacionais.

O relatório defende mudanças na governança de organismos como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, além de alterações nos mecanismos de representação e tomada de decisões. (WID - World Inequality Database)

Um mundo mais multipolar

A ideia de uma economia mundial multipolar está presente em diferentes partes do trabalho produzido pelo World Inequality Lab.

O cenário considerado pelos pesquisadores é aquele em que Estados Unidos, China, Índia, União Europeia, Brasil e outras regiões compartilham maior peso econômico e político.

Nesse ambiente, a manutenção de um sistema financeiro concentrado em poucas moedas e instituições é apresentada como um dos problemas que precisariam ser enfrentados.

O relatório não apresenta apenas uma mudança monetária. Ele propõe uma transformação mais ampla da governança econômica global.

O alerta sobre desigualdade e clima

Piketty relaciona diretamente desigualdade econômica e mudanças climáticas.

Segundo a linha de pesquisa do World Inequality Lab, a distribuição extremamente desigual da renda e da riqueza interfere na capacidade dos países de financiar políticas públicas e investimentos necessários à transição energética.

O World Inequality Report 2026 afirma que os 10% mais ricos da população mundial concentram cerca de três quartos da riqueza global, enquanto a metade mais pobre possui aproximadamente 2%. (World Inequality Report 2026)

Esses números são utilizados pelo relatório para defender mudanças na tributação e na distribuição dos recursos.

Uma proposta para o longo prazo

As ideias apresentadas por Thomas Piketty estão longe de representar um consenso entre economistas, governos e instituições internacionais. Trata-se de um projeto de transformação da arquitetura econômica mundial que dependeria de ampla negociação entre países.

O ponto central da proposta é que o sistema internacional precisaria se adaptar a uma realidade diferente daquela existente no pós-guerra.

A economia mundial tornou-se mais diversificada, novas potências ganharam importância e questões como desigualdade, mudanças climáticas e financiamento do desenvolvimento passaram a ocupar espaço crescente na agenda internacional.

Nesse contexto, Piketty defende que o sistema monetário e financeiro também deveria acompanhar essa transformação.

O que pode acontecer com o dólar?

A afirmação de que o dólar poderá perder sua posição dominante deve ser entendida como uma previsão e uma interpretação de Thomas Piketty, e não como um fato já consumado.

Os dados disponíveis mostram que o dólar continua ocupando posição predominante no sistema monetário internacional. O próprio World Inequality Report 2026 reconhece essa predominância, embora discuta seus efeitos sobre a distribuição global de recursos. (World Inequality Report 2026)

A questão, portanto, não é simplesmente saber se o dólar desaparecerá, mas acompanhar como poderá evoluir o equilíbrio entre as principais moedas e instituições financeiras nas próximas décadas.

A discussão proposta por Piketty abre, assim, uma questão maior: o sistema econômico criado no século XX conseguirá acompanhar um mundo cada vez mais multipolar, desigual e pressionado pelas mudanças climáticas?

Essa é uma questão que continuará no centro do debate econômico internacional.

Por Luiz Sérgio Castro

Fontes: BBC News Brasil e World Inequality Lab.

Fonte oficial para consulta: World Inequality Lab — Global Justice Report · World Inequality Report 2026

 

 

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