JK: a traição que transformou um apoiador do golpe em opositor da ditadura


Da Redação

Há 50 anos, em 22 de agosto de 1976, morria Juscelino Kubitschek, um dos mais importantes presidentes da história do Brasil. Conhecido pela construção de Brasília e pelo projeto desenvolvimentista que marcou seu governo, JK também deixou uma trajetória política marcada por uma profunda transformação: de apoiador da deposição de João Goulart, em 1964, tornou-se vítima e posteriormente opositor do regime militar.

Quando os militares derrubaram Jango, Juscelino era senador e uma das principais lideranças políticas a apoiar o movimento. Havia, porém, a expectativa de que o general Humberto de Alencar Castelo Branco conduzisse o país até as eleições presidenciais previstas para 1965. JK já se preparava para disputar aquele pleito e era considerado um dos favoritos.

A promessa não seria cumprida.

Poucos meses depois do golpe, cresceram as ameaças contra políticos considerados inconvenientes ao novo regime. Em 3 de junho de 1964, JK fez seu último discurso como parlamentar. Sabia que sua cassação estava próxima. Cinco dias depois, seus direitos políticos foram suspensos.

Na tribuna do Senado, deixou uma advertência que permanece como um dos registros mais fortes daquele período:

“Muito mais do que a mim, cassam os direitos políticos do Brasil.”

JK denunciava aquilo que considerava uma traição às promessas feitas pelos militares e previa que o país entraria em um período de restrição das liberdades. Seu temor se confirmou nos anos seguintes.

Em 1965, o Ato Institucional nº 2 dissolveu os partidos políticos, estabeleceu eleições presidenciais indiretas e ampliou os poderes do Executivo para cassar mandatos. Exilado, JK passou por Paris, Lisboa e Nova York antes de retornar ao Brasil em 1967.

Dois anos depois, uniu-se a antigos adversários, como Carlos Lacerda e João Goulart, na Frente Ampla, movimento que defendia a redemocratização e o retorno das eleições diretas. A iniciativa foi proibida pelo regime.

Uma morte cercada de dúvidas

Em 22 de agosto de 1976, JK morreu em um acidente na Rodovia Presidente Dutra. O Opala em que viajava, conduzido por Geraldo Ribeiro, colidiu com uma carreta. A versão oficial sempre sustentou que se tratava de um acidente.

Entretanto, as circunstâncias da morte permaneceram cercadas de suspeitas. Investigações posteriores apontaram inconsistências em laudos, falhas na preservação de provas e ausência de exames que poderiam ajudar a esclarecer o ocorrido.

Em 2021, investigação do Ministério Público Federal apontou graves problemas na apuração realizada durante a ditadura. Em maio de 2026, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos concluiu que JK foi vítima de assassinato político cometido pelo regime militar e recomendou alteração de sua certidão de óbito.

Cinco décadas depois, a morte de Juscelino continua sendo objeto de debate histórico. Mas sua trajetória revela uma das grandes contradições do período: o homem que inicialmente acreditou que a intervenção militar poderia restaurar a ordem e preservar as instituições acabou cassado pelo próprio regime que ajudara a instalar.

A história de JK é, portanto, também uma advertência sobre os riscos de se aceitar a ruptura institucional como solução para crises políticas. Quando as liberdades são sacrificadas em nome de uma promessa de estabilidade, nem mesmo aqueles que apoiam a ruptura estão necessariamente protegidos de seus efeitos.

Juscelino Kubitschek morreu sem assistir à redemocratização do Brasil. Sua voz, porém, permaneceu registrada na história. E sua frase — “cassam os direitos políticos do Brasil” — ganhou, com o passar das décadas, um significado que ultrapassa sua própria cassação: o alerta de que a democracia não pode ser defendida pela destruição das instituições que a sustentam.

 


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